Há pouco tempo atrás eu encontrei um conteúdo muito interessante sobre as facções do Rio de Janeiro.
Um conteúdo antigo, que relata as origens das facções.
Seus soldados, chefes e donos, que lideravam o tráfico nos anos 80 e 90.
Esse registro foi escrito pelo (Jornalista) Carlos Amorim, publicado abertamente na internet.
Para ampliar a discussão “facções” aqui no blog, vou reposta trechos de histórias do livro. Completo, são 200 páginas.
Segue as primeiras.
A História Secreta do Crime Organizado
O tiroteio da Rua Altinópolis revelou pela primeira vez ao grande público a existência do Comando Vermelho. O ano era 1981.
O leitor mais apressado pode achar que a história das origens do Comando Vermelho, na primeira parte do livro, é muito condescendente
Para com criminosos perigosos.
Eu mesmo penso assim. Mas me ative rigorosamente ao desenrolar dos acontecimentos. Os primeiros anos da organização foram marcados pelo sacrifício, pelo espírito de grupo e até por preocupações de ordens social e política.
Depois de algum tempo--no entanto-- as coisas mudaram de curso. O tom
empregado no livro corresponde ao meu convencimento pessoal de que
não se pode lutar contra a verdade. Não dá para resistir à clareza dos
fatos.
O objetivo deste trabalho é revelar os bastidores do crime organizado
no Rio de Janeiro e suas ramificações no país e no exterior.
Uma história que muitas vezes coloca o criminoso, o político e a lei do mesmo
lado da cerca. Não pretendo questionar a ordem jurídica vigente no Brasil, nem
os métodos e resultados do trabalho policial. Mas a verdade é sempre uma faca afiada.
Carlos Amorim
junho de 1993
Dá até cadeia.
Sabendo disso, no Morro Dona Marta, no bairro de Botafogo, os traficantes instalaram a boca-de-fumo perto da creche mantida pela Associação de Moradores.
A subida da favela fica a duzentos metros do Segundo Batalhão da Polícia Militar, e pode ser invadida a qualquer momento.
Se a polícia sobe, os "soldados" da quadrilha colocam a criançada na rua imediatamente, formando uma espécie de barreira infantil para os tiros da PM.
A força de choque dos traficantes entra em ação para ganhar tempo e recolher a mercadoria nos pontos de venda da favela.
Ao mesmo tempo, os mais visados pela polícia desaparecem, tragados pelo labirinto de ruelas e barracos.
Em muitos pontos das favelas existem caminhos subterrâneos, verdadeiras passagens secretas, que servem como rotas de fuga durante as invasões policiais.
Ou, em muitos casos, o traficante perseguido simplesmente entra num barraco e se esconde debaixo da cama, num armário, mergulha na caixa-d'água.
E os moradores o protegem com o silêncio. Se o abrigo for descoberto, a família que mora ali diz para a polícia que tinha medo de denunciar o bandido e morrer nas mãos da quadrilha.
É verdade. Mas espontaneamente o morador não ajudaria a polícia.
Em matéria de fugas, são mestres os traficantes dos morros do Pavão e Pavãozinho, entre Copacabana e Ipanema.
Conseguiram montar um esquema incrível: uma gruta com trezentos metros de comprimento e 1,40 de largura liga as duas favelas e serve para a fuga dos bandidos durante as operações policiais.
A passagem secreta foi descoberta pelo major Paulo César de Oliveira, do Batalhão de Operações Especiais da PM (Bope).
O oficial, chefiando cinqüenta soldados, invadiu a parte da favela do Pavãozinho conhecida como "Vietnã" e encontrou a entrada da gruta.
Na porta, outra descoberta: duas mulas estavam pastando calmamente, presas por cordas. Os animais, segundo a polícia, serviam para transportar drogas, armas e munição de um lado para o outro.
Os militares queriam dinamitar o túnel, mas não foram autorizados.
A explosão provocaria deslocamento das pedras, o terreno poderia ceder, amassar alguns barracos, provocar uma tragédia.
Império do Jacarezinho e o Meio-Quilo
Uma boca-de-fumo pode ter milhões de cruzeiros (moeda da época) em maconha e cocaína.
O faturamento dos doze pontos de venda de drogas na favela do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio, é de quase 4 bilhões de cruzeiros por mês, em valores do primeiro trimestre de 1993.
No Morro da Mineira, 1 bilhão por mês. O Jacarezinho é atacadista de cocaína e maconha para quase toda a cidade.
Parte da maconha pode estar secando ao sol, sobre telhados de alguns barracos--mesmo que estes barracos não pertençam aos traficantes.
Salvar tudo isso leva tempo e o grau de resistência oferecido pela "segurança" varia de acordo com a velocidade da fuga e do recolhimento da droga.
Em geral, a polícia entra, há uma rápida troca de tiros. Rajadas
de metralhadora de ambas as partes.
A seguir, um silêncio tenso que esconde táticas diferentes: a polícia se protegendo, os traficantes desarmando a quitanda. Quem for mais rápido, e competente leva a melhor.
Quando se vê na televisão a apreensão de drogas e armas nas favelas, isto pode significar duas coisas: ou a polícia tinha um ponto exato para atacar e foi direto para lá com superioridade numérica de equipamentos (nisso o uso de helicópteros é fundamental), ou os reforços chegaram a tempo e permitiram que a invasão fosse adiante.
É fácil perceber a importância de um menino como Tião. Um bom grupo de olheiros significa a diferença entre a vida e a morte.
E as crianças são as mais indicadas para isso. Podem passar despercebidas e têm a agilidade natural da idade.
Quando Tião solta a pipa de cima da caixa d'água, é possível observar outros quatro meninos empinando papagaios em pontos estratégicos da favela da Providência.
No dia 10 de outubro de 1991, a polícia apreendeu ali uma pipa branca com a sigla CV pintada em vermelho.
Branco e vermelho, as cores da organização na mão dos meninos da Providência. Cada um dos cinco olheiros cobre uma provável via de acesso da polícia.
Esse serviço de vigilância- com rendição às duas da tarde--serve especificamente para as operações policiais. Quando o inimigo são as quadrilhas rivais, os meninos não podem ajudar.
Os ataques acontecem à noite.
Na maioria absoluta dos casos, os pais dessas crianças sabem o
que elas estão fazendo. Não é que concordem com isso, mas não têm
como impedir que seus filhos prestem serviços ao crime organizado.
As quadrilhas são parte integrante da vida dessas comunidades pobres.
São o "caminho natural" para muitos jovens favelados.
Ali eles encontram três coisas que terminam sendo fundamentais para o resto de suas vidas, em geral curtas: dinheiro para ajudar a sustentar a família; uma organização fraternal entre seus membros (a solidariedade extremada e um ódio mortal aos inimigos fazem parte ativa deste relacionamento); e um modo de ascensão social perante a comunidade local.
O bandido anda pelo morro orgulhosamente. Ele mostra as armas,
é visto com respeito e medo pelos demais, impõe a lei do mais
forte.
Os chefes das quadrilhas são a elite dessas comunidades atormentadas
pela miséria, pela dureza da vida. São homens que desafiaram
o sistema, enfrentam o braço armado da sociedade--a lei--e
ainda conseguem sobreviver com muito dinheiro no bolso.
Eles realizam sonhos de consumo. Usam carros zero quilômetro--e não chega a importar muito se são carros roubados.
Os comandantes do tráfico moram em verdadeiros palacetes no meio das favelas. Por fora, uma casa feia, muitas vezes sem reboco--por dentro, piscina, banheira com hidromassagem, antena parabólica.
Como diria Joãozinho Trinta: é o luxo no lixo. Tem aquilo tudo que o pobre só vê pela televisão.
E uma aura de heroísmo em torno deles atrai inclusive muitos jovens
da classe média abastada.
Mas nada se compara ao romance da filha de um vice-governador do Rio com o traficante Meio-Quilo, líder da favela do Jacarezinho, um dos poderosos chefões do Comando Vermelho.
Paulo Roberto de Moura Lima nasceu na favela. Filho do operário cearense Francisco Salles de Moura e de Joana Moura, aos onze anos de idade costumava ajudar o padre Nelson Carlos Del Mônaco a celebrar a missa de domingo na paróquia de Nossa Senhora da Auxiliadora.
A capela fica bem no meio da favela do Jacarezinho, hoje transformada no quartel-general do tráfico de cocaína no Rio.
Menino ágil e ambicioso, Paulinho logo trocou a igreja pelo trabalho como "avião" dos traficantes. Ou seja: aquele que entrega a droga aos viciados.
Esperto, muito cuidadoso, nunca andava com grande quantidade da droga. Um truque para se passar por viciado se fosse apanhado pela policia.
A lei se concentra no traficante--o viciado só é condenado a tratamento, nunca à prisão. Andando sempre com "pesos pequenos", ficou conhecido como Meio-Quilo.
De "avião" para traficante, um pulo.
Em 1981, quando se casou com Márcia Neves, já era conhecido fora das fronteiras do Jacarezinho.
Meio-Quilo fez uma escalada rápida no crime organizado. Conquistou
a amizade de um dos mais importantes traficantes do Comando Vermelho: José Carlos dos Reis Encina--o Escadinha--, senhor todo poderoso do Morro do Juramento.
![]() |
| Escadinha |
Ele ajudou Meio-Quilo a controlar tráfico no Jacarezinho. Emprestou homens, armas, e deu a ele o cargo de gerente da boca.
Meio-Quilo fez o resto sozinho. Parte do dinheiro da venda de drogas era aplicada em melhorias na favela: mas crianças de ente de preso acabou detido pelos guardas em Frei Caneca. E morre vítima de hemorragia cerebral.
Até hoje um inquérito tenta determinar o que fez com que os médicos agissem desta maneira. Meio-Quilo morreu aos 31 anos. Estava condenado a 360 de prisão.
Seu enterro levou três mil pessoas ao cemitério de Ricardo de
Albuquerque.
A comunidade favelada do Jacarezinho, a segunda maior da América Latina, chorou a morte de seu líder.
A tentativa de resgatar os chefões do Comando Vermelho ganhou a primeira página de todos os jornais do país.
E revelou o romance que ficou conhecido como "amor bandido", virou título de capa de muitas revistas.
Há quatro meses Meio-Quilo namorava a filha do vice-governador do Estado.
Um namoro--é claro--dentro do presídio.
Maria Paula Amaral, filha de Francisco Amaral, um político muito popular na Baixada Fluminense, tinha vinte anos quando se apaixonou pelo traficante.
Sua mãe comandava um trabalho de assistência aos presidiários. Maria Paula ajudava--e fez parte de um projeto de reforma do teatro do presídio onde estava Meio-Quilo.
Um dia, uma conversa pelo telefone, um amor à primeira palavra.
Quando o traficante morreu, a filha do vice-governador apareceu no Instituto Médico-Legal.
Deu uma estrondosa entrevista à imprensa. Disse que, depois de ferido gravemente, Meio-Quilo foi espancado pelos guardas do Desipe.
Responsabilizou o Estado que o pai representava pela morte do traficante. E disse mais: Meio-Quilo era um homem honrado, dizia para ela nunca usar drogas.
E sempre a prevenia de que iria morrer cedo.
A crueldade desses homens, que os jornais populares não se cansam de mostrar, geralmente se aplica ao inimigo, aos bandidos rivais, aos delatores, aos elementos infiltrados da polícia, aos covardes.
Na comunidade carente, os chefões do crime organizado são pessoas bem vistas,tratadas até com certo carinho.
É que, para ter negócios lucrativos, o tráfico de drogas precisa de tranqüilidade.
Com a polícia subindo o morro todo dia, ninguém consegue ganhar dinheiro e nem os fornecedores da droga, nem os distribuidores que a levam para a sociedade refinada do asfalto, para os jovens ricos da Zona Sul.
O tráfico não é compatível com a desordem na favela. E é justamente por isso que a "segurança" das bocas-de-fumo termina atuando como estranha polícia no morro.
Durante dois anos, fui vizinho da Favela da Mineira....
(Continua)
Se deseja que eu continue transcrevendo os relatos desse livro.
CLIQUE AQUI PRA BAIXAR O LIVRO COMPLETO
Por favor, escreva nos comentários abaixo.




0 Comments